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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Os pequenos milagres que a gente não vê


Ainda ontem publiquei um comentário na postagem "Você acredita em milagre?" e mesmo depois de respondê-la permaneci pensando no assunto. Conforme disse em minha resposta ao comentário, quem acredita não precisa de provas nem questiona muito, mesmo porque a única pessoa que poderia explicar o porquê de um milagre provavelmente não irá nos responder de imediato.

E digo que não irá responder de imediato porque as respostas sempre vêem e presenciamos pequenos milagres diariamente, sem mesmo nos dar conta disso. Costumamos chamar a esses pequenos milagres 'coincidências' porque a palavra teoricamente explica tudo. Mas se formos analisar a fundo as probabilidades das tais 'coincidências' acontecerem - e elas sempre acontecem em cadeia, mostrando que há um Ser Inteligente fazendo com que aconteçam para atingir um determinado resultado - veremos que a probabilidade matemática de elas terem acontecido da maneira que aconteceram ficam reduzidas a praticamente zero.

Quando alguém que nunca perdeu a hora acorda tarde justamente no dia em que vai pegar um avião, depois se demora porque não encontra alguma coisa (justo ele, tão organizado) e a seguir fica preso no trânsito num local onde normalmente não há engarrafamentos, e ao fim de tudo perde o avião, devemos supor que tudo conspirou para que ele não entrasse de forma alguma naquele voo. E se esse avião cai logo depois de decolar e morrem todos os passageiros, isso nos leva a crer que o fato de 'alguém' ter impedido de todas as formas que ele entrasse no avião foi tramado para que ele não morresse.

Por quê? Essa é uma pergunta difícil. Porque não era sua hora. Porque ele ainda não tinha cumprido sua missão. Porque para o bem dele e de outros seria melhor que permanecesse por aqui mais um tempo. Ou talvez mais adiante essa resposta fique clara.

Uma amiga contou-me que certa vez tinha que levar um filho pequeno ao médico mas que não encontrava a chave do carro de jeito nenhum. Procurou por toda a casa e a chave (que sempre ficava no mesmo lugar) não estava lá de forma alguma. Já com o bebê na cadeirinha sentiu que tinha que tomar uma providência ou perderia a consulta, decidiu ir de táxi.

À noite, assim que seu marido chegou reclamou com ele que, mesmo sabendo que ela teria que usar o carro, não deixara a chave no local de sempre e contou-lhe o que havia acontecido. Seu marido estranhou e foi até o lugar onde a chave costumava ficar pendurada, e qual não foi a surpresa dos dois vendo-a exatamente no mesmo lugar de sempre.

- Mas não é possível, procurei a chave pela casa toda, como ela poderia estar aí?

Não encontraram a explicação até o dia seguinte, quando o marido foi sair para o trabalho com o carro. Assim que ele girou a chave houve um problema elétrico e imediatamente o motor do carro começou a incendiar-se. Em poucos minutos a fumaça havia invadido todo o carro, mas o marido de minha amiga conseguiu pegar o extintor de incêndio e em poucos minutos apagou as chamas.

Estava explicado o motivo do sumiço da chave no dia anterior, porque se isso tivesse acontecido com minha amiga, ela que não sabia usar o extintor dificilmente teria a presença de espírito (ou tempo) de tirar o bebê que estaria no banco de trás preso à cadeirinha, antes que o fogo tomasse conta de tudo.

Os pequenos milagres acontecem conosco diariamente e os taxamos de 'coincidências' para não pensar no fato de que em algum lugar existe ALGUÉM cuidando de nós. Não estamos sós, de forma nenhuma.

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Cléo Pires antes e depois do espiritismo


Carioca, filha de Fábio Jr. e Glória Pires, Cleo conta que já foi muito consumista, gastava demais e comprava o que não precisava. Depois se converteu ao espiritismo e começou a praticar ioga, voltando-se mais para o presente. Aí acabou a vontade de comprar tudo o que via, agora compra só o que precisa.

Leia mais em O Globo - Cultura - Cleo Pires: 'Decidi que queria me transformar numa deusa'

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Espiritismo ajuda corintiano

Foram seis meses se recuperando de lesão, poucos minutos em um jogo da Série B e mais dois meses só de treino. O ano de 2008 não foi fácil para Bruno Octávio. De titular de Mano Menezes a integrante do departamento médico, o volante recorreu à família, ao espiritismo e contou com o novo "design" do centro de reabilitação alvinegro para se recuperar.

Apesar do tempo parado, o volante de 23 anos segue prestigiado com o treinador. Tanto que foi mantido no elenco para esta temporada, enquanto jogadores que atuaram mais no ano passado, como Carlos Alberto e Nilton, saíram dos planos do clube para este momento.

Mas nem por isso os últimos meses foram de alegria para Bruno Octávio. A lesão no ligamento cruzado anterior do joelho direito, sofrida no dia 2 de março do ano passado, diante do Palmeiras, atrapalhou sua trajetória. Para encarar o longo período de recuperação, precisou de diferentes formas de auxílio.

"Como sou kardecista, lia muitos livros de espiritismo. O que mais me marcou foi o 'Guardião da meia-noite' [de Rubens Saraceni], que fala de situações de dificuldade e de como superá-las. Ainda não encontrei nenhum que fale de lesão no joelho [risos], mas esse daí tem bastante de auto-ajuda", conta.

Continue lendo em UOL Esportes - Futebol - Espiritismo e DM envidraçado ajudam corintiano em retorno)

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sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Libertando as amarras

(Essa postagem é uma continuação dos posts
Nosso destino está traçado
Um sentido novo à vida
De encontro ao meu destino
Nas entrelinhas
portanto leia primeiro os outros para entender a história)

Foi muito difícil explicar ao rapaz o que tinha acontecido durante as semanas que ele estivera em coma. No fundo eu me sentia "culpada", quase como uma traidora, mas depois eu dizia a mim mesma que nem sequer o conhecia. Eu agira exatamente como o combinado, e se as coisas tomaram o rumo que tomaram não foi culpa de ninguém, simplesmente é porque era assim que tinha que acontecer.

Também foi duro despedir-me de meus filhos, mas 4 já eram adultos e tinham suas vidas já ajeitadas, o caçula ficaria a cargo de meu ex-marido. Sair da escola onde eu dera aulas por 10 anos também não foi fácil, mas quem disse que é fácil recomeçar? É impossível fazer uma omelete sem quebrar os ovos, e se eu queria viver o amor de minha vida ao lado de minha alma gêmea tinha que abrir mão de muita coisa. E essas pessoas todas, tão caras para mim, tinham suas vidas para viver e ficar à sua sombra não era suficiente para me fazer feliz. Fui então em busca de minha felicidade.

No início a adaptação não foi fácil, era o ambiente novo da escola, uma nova visão do meu trabalho que hoje me estimula, mas que na época foi uma causa a mais de stress. E eu ficava pensando se conseguiria vencer mais essa. Marques sempre ao meu lado me dizendo que reconheceriam meu valor e se acostumariam à minha forma de trabalhar. Minha comadre não queria outra nora e fazia pressão para que o namoro acabasse, até a ex dele começou a dar trabalho, fazendo chantagem sentimental com o filho pequeno e me passando trotes no celular.

Havia momentos em que eu achava que tinha feito uma grande bobagem e que teria sido melhor ter ficado onde eu estava, curtindo um relacionamento à distância pela internet, sem grandes alegrias mas também sem ter que me adaptar, aprender, vencer novas batalhas. Mas logo em seguida percebia que aos poucos as coisas iam tomando forma, meu trabalho era reconhecido, alunos e colegas passaram a me respeitar.

A ex de Marques arranjou um namorado, minha comadre conformou-se em ter uma nova nora, as coisas começaram a entrar nos eixos e comecei a curtir minha vida nova. Namorar era quase uma experiência nova depois de tanto tempo, tanto para mim quanto para ele.

Em maio de 2007 eu e Marques nos unimos e assim que meu divórcio saiu nos casamos. Após 1 ano e 7 meses de união estamos na maior felicidade. Nunca discutimos nem brigamos e os momentos que passamos juntos são os melhores de nosso dia.

Meu caçula veio morar conosco e dois dos adultos vieram morar aqui também. Aos poucos aceitaram minha nova vida e meu novo marido. Hoje vejo que se não tivesse vindo a São Paulo conhecer alguém que jamais apareceu nada disso teria acontecido. Da forma mais imprevisível, com voltas e reviravoltas, acabei encontrando tudo o que vim procurar. Na verdade, encontrei muito mais do que julguei possível e estou feliz ao lado da minha cara metade.

Acho que todos os que têm a coragem de ir atrás do que procuram e que não têm medo das mudanças são recompensados. Quando as oportunidades surgem em nossa vida temos que aproveitá-las porque pode ser que o que você mais quer esteja logo ali, depois da curva do caminho. Basta você seguir em frente que o encontrará.

Essa história pode parecer meio maluca mas imagino que só aconteceu porque nos permitimos ser guiados por nossa voz interior, que nos dizia os próximos passos a serem dados para a concretização de nosso destino. Não foi fácil chegar até aqui mas tudo o que vivemos compensou pela vida que temos agora. É como se diz: Deus escreve certo por linhas tortas.


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Nas entrelinhas

(Esta postagem é uma continuação dos posts:
Nosso destino está traçado
Um sentido novo à vida
De encontro ao meu destino
portanto leia antes as postagens anteriores para entender a história desde o início.)

Da viagem até a casa de minha comadre lembro pouca coisa, apenas paisagens estranhas turvadas por lágrimas, rostos desconhecidos olhando-me com curiosidade, pensamentos desconexos cruzando-me a mente em átimos de segundos. Quando finalmente desci do ônibus em frente à casa dela foi como se um século ou uma vida inteira tivessem passado. Eu trazia nos ombros o peso de sonhos despedaçados, castelos desfeitos, amores inacabados.

Do outro lado da rua vi um homem parar e me acenar para que eu atravessasse e reconheci nele o filho de minha comadre. Entreguei minha vida àquele gesto e fui de encontro a ele sem olhar para os lados. Não sabia disso no momento mas enquanto atravessava, minha verdadeira história começava.

Eu já o conhecia há anos mas de pouca coisa me lembrava. Ele sabia apenas que eu era a comadre de sua mãe e que muitos anos antes eu fora objeto de seu desejo. Disso eu não sabia.

Na casa de minha comadre consegui um pouco de paz e os poucos dias que passei lá modificaram meu destino para sempre. Já no segundo dia eu e Marques (o filho dela) conversávamos como se fôssemos amigos de infância. Laços fortes e intrigantes nos uniram desde o primeiro dia e eu me perguntava como poderia me sentir tão próxima de quem mal conhecia.

Mas lá dentro algo me contradizia. Era como se eu já o conhecesse há muito tempo, quando meus olhos mergulhavam nos seus eu sentia uma familiaridade estranha e ele sentia o mesmo. Em três dias já éramos inseparáveis. Nossos papos se arrastavam pelo dia e pela tarde afora e depois pela noite adentro.

A idéia de mudar-me para Diadema instalou-se em minha mente, e a despeito de minha comadre achá-la absurda assim que pensei nisso as coisas deram tão certo que só me faltava dizer "estava escrito".

Depois de uma semana em Diadema voltei para Pacaembu e por 40 dias as notícias do outro rapaz eram as mesmas. Estava em coma. E enquanto ele dormia eu e Marques nos falávamos por telefone e celular quase todo dia, e a amizade virou paixão. Decidi vir a Diadema visitá-lo, aproveitando que teria uma entrevista de emprego em uma escola daqui. A entrevista deu super certo e revê-lo só fez crescer em mim a certeza de que fazia a coisa certa.

Estávamos contando os dias que faltavam para que eu me mudasse para Diadema e que pudéssemos viver nossa paixão. Aos poucos eu mais e mais me convencia de que ele era o homem por quem eu havia esperado durante toda a minha vida. Menos de um mês para a concretização do sonho de uma vida inteira e quando eu já nem esperava, aconteceu: o rapaz que me dera o bolo acordou do coma e entrou em contato comigo.

Essa postagem continua em: Libertando as amarras
(Zailda Coirano)



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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

De encontro ao meu destino

(Esse texto é a continuação das postagens:
Nosso destino está traçado
Um sentido novo à vida
portanto sugiro que as leia primeiro para entender a história)

Cheguei a São Paulo 2 horas mais cedo do que o esperado, mas mesmo assim fui para o local combinado e me preparei para uma longa espera. Dentro de mim algo dizia que a espera seria longa, talvez eterna. As horas se passaram e eu imaginava-o chegando, mas nada acontecia. As pessoas iam e vinham, indiferentes ao drama que eu vivia.

Depois de passar horas esperando dei-me conta do óbvio: ele não viria. E também percebi que viera a São Paulo com uma única idéia na cabeça, caso não desse certo não sabia o que ia fazer. Estava na maior cidade da América do Sul e não fazia idéia para onde ir.

Decididamente não pretendia voltar para minha cidade derrotada e de mãos vazias, tampouco queria ir para a casa de parentes que moravam aqui e que já estavam cientes da história. O que eu menos queria era ouvir sermões ou perguntas. Eu mesma estava cheia de perguntas sem resposta e não me sentia capaz de encontrar respostas para as perguntas de outras pessoas. Decidi então ir para a casa de minha comadre.

Ela é a madrinha de minhas 2 filhas mais velhas e desde que eu me mudara de Diadema, em 1985, essa seria minha primeira visita à casa dela. Ela sempre ia me visitar e essa seria a oportunidade de retribuir suas visita. Lá eu também me sentiria em "território neutro", sensação mais que bem-vinda nesse momento delicado.

Com as mãos trêmulas liguei para a casa de minha comadre e do outro lado uma voz masculina respondeu. Era o filho dela, Marques, de quem eu vagamente me lembrava da época que morara em Diadema, quando ele era pouco mais que um garoto. Minha comadre sempre falava dele quando ia à minha casa mas eu não dava muita atenção.

Conversei com minha comadre e ela concordou que eu fosse para lá. Eu estava ainda dentro do ônibus quando meu celular recebeu uma mensagem. Era do rapaz que me dera o bolo. Meu coração disparou e foi com mãos trêmulas que abri a mensagem:

"Aqui é o irmão de ... Há 2 dias ele teve um derrame. Coma profundo. Estado desesperador. Só saberemos se sobreviverá nas próximas 72 horas"

As lágrimas vieram a meus olhos e começaram a rolar sem que eu as sentisse. De repente eu não via mais nada. Uma angústia profunda me rasgou toda por dentro.

(Esta postagem continua em Nas entrelinhas)


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Um sentido novo à vida

(Essa postagem é continuação de "Nosso destino está traçado", se você não a leu, leia antes de ler essa aqui)

Comecei a conversar todas as noites com o rapaz que tão formalmente iniciara essa amizade. Eu ouvi seus problemas, de seu namoro desfeito, de sua solidão, e depois fui também falando dos meus, de meus relacionamentos terminados e minha firme determinação de ficar enfiada em casa até o último de meus dias.

A amizade crescia, às vezes nos emocionávamos com nossas histórias, mas mais freqüentemente ríamos de nossas piadas particulares. Ele gostava de meu humor ácido, eu de seus trocadilhos e sua rapidez de raciocínio. Em um mês éramos amigos íntimos e nossa conversa antes de dormir era a melhor parte de meu dia.

As conversas se espichavam, compridas, a cada dia eu passava mais tempo na frente do computador, chegando ao record de 17 horas seguidas num sábado. Se perguntarem sobre o que falávamos, não sei dizer ao certo. Falávamos de tudo e de coisa nenhuma. Apenas falávamos e ouvíamos. Pela primeira vez eu sentia que alguém nesse mundo me entendia, mesmo estando a milhares de quilômetros, com um mar no meio nos separando.

Com pouco mais de um mês de conversa ele queria me ver pessoalmente. Resisti a princípio mas depois pensei: que estou perdendo? E acabamos por combinar que ele viria ao Brasil no carnaval de 2006 e nos encontraríamos em São Paulo. Para mim seria uma viagem de 700 km e ele iria atravessar o Atlântico.

Depois de combinarmos o encontro ficamos ainda mais íntimos, a ponto de eu pensar que estava apaixonada e que havia encontrado minha alma gêmea. A cada dia minha ansiedade crescia, a ponto de eu não conseguir mais esperar pelo momento, e recomecei a sonhar. Mas quanto mais tempo eu dedicava às nossas conversas, mais meus filhos me criticavam, achavam que ele era apenas um desocupado se divertindo às minhas custas, um tarado da internet, um louco seqüestrador. Quanto mais se aproximava o dia de minha viagem mais aumentava a pressão deles tentando me fazer desistir.

Mas eu já tinha tomado uma decisão e iria até o fim, custasse o que custasse. Dentro de mim algo me dizia que meu destino passava por São Paulo, que eu tinha que vir, que algo muito importante e que iria mudar minha vida estava me esperando aqui. E essa sensação crescia conforme os dias passavam.

O dia da viagem se aproximava e 2 noites antes ele não apareceu para conversar. Nem no dia seguinte, nem no dia da viagem. Meus filhos e amigos redobraram seus esforços para me fazer desistir, dizendo que se ele não aparecia para conversar na internet também não apareceria em São Paulo.

A essa altura a cidade inteira já sabia de minha "aventura" e todos queriam dar sua opinião, uns medrosos me falando de histórias horripilantes sobre gente que vai se encontrar com quem conheceu pela internet, outros entusiasmados, talvez vivendo minha história como se fosse a deles, ou algo que gostariam de também vivenciar. Mal sabiam eles que tanto fazia se eram contra ou a favor pois dentro de mim a decisão já estava tomada.

No dia combinado entrei no ônibus com o coração aos pulos e senti que ia de encontro ao meu destino.

(Essa história continua na postagem "De encontro ao meu destino")

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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Nosso destino está traçado?

Não acredito que nosso destino esteja inexoravelmente decidido e que não tenhamos nenhum controle sobre o que vai nos acontecer, imagino que antes de virmos para essa vida terrena nos propusemos a fazer algumas coisas e para concretizá-las sabíamos de antemão alguns caminhos que teríamos que seguir por aqui.

Depois de encarnados nos esquecemos de tudo e por vezes tentamos nos furtar ao que foi combinado anteriormente mas o Criador nos faz lembrar de nossas missões e por mais voltas que demos, quando abrimos o olho estamos novamente no mesmo lugar.

Olhando agora para trás percebo que mesmo tendo dado muitas voltas acabei chegando onde teria que chegar, pois desde o início tudo apontava para isso, só os personagens centrais dessa história que vou contar é que não viam. Analisando agora tudo o que aconteceu tenho uma idéia clara de que para que tudo se passasse como se passou é necessário haver uma Força Superior, ou a Mão de Deus, como queira, a nos guiar na escuridão.

Imagino que essa história tenha começado muito antes mesmo de qualquer um de nós ter nascido, mas como não me lembro não posso contar essa parte, apenas imaginá-la. E se alguém ainda duvida da existência da alma gêmea, daquela pessoa que vai completar nossa existência, talvez mude de idéia ao ler essa história, ou talvez não. Talvez só abandone o ceticismo quando a SUA história acontecer, nessa vida ou em outras que estão por vir.

Escolhi contar a história em capítulos por ser longa e nos detalhes é que está o charme da coisa toda, então caro leitor, queira dispensar-me alguns minutos de sua atenção diária que prometo que no final entenderá o que eu disse sobre o destino. E se torce o nariz agora, garanto que eu teria a mesma reação alguns anos atrás, e logo você entenderá porque mudei meu modo de pensar.

Antes de mais nada vou dar uma breve visão panorâmica da situação quando tudo começou. Na época eu nem sabia que alguma coisa estava começando, mas bem que o pressenti. De qualquer modo, pela forma que as coisas se passaram, mesmo sentindo algo estranho eu jamais poderia furtar-me a viver a minha história.

Eu me casei e descasei várias vezes e o fato já virara piada em minha cidade. Eu morava numa pequena cidade do interior de São Paulo com 12 mil habitantes, para onde tinha me mudado em 85 para lá criar minhas 3 filhas e havia me separado recentemente. Lá casei-me novamente e tive mais um filho, adotamos outro. Após 12 anos a união se desfez e fui viver minha vida sózinha, decidida firmemente a nunca mais unir-me a ninguém.

Mesmo assim comecei a namorar um rapaz 17 anos mais novo. Namoramos durante 3 anos e meio mas apesar de ele querer casar-se nós nunca nos entendemos bem. Ao final do namoro eu já estava tão desesperançada de encontrar a tal "alma gêmea" e tão cansada de tantos casamentos desfeitos que terminei o namoro jurando a meus filhos que nunca mais me casaria. Para melhor cumprir o prometido isolei-me em casa, só saía para ir trabalhar.

Permaneci em meu castelo isolado por um ano e durante esse tempo fiquei viciada em internet. Tinha muitos contatos no msn, do mundo inteiro, em vários idiomas, e passava as horas de lazer em frente do computador. Dentre meus contatos havia um com quem eu nunca havia falado, e foi uma surpresa quando um pouco antes do natal ele começou a conversar comigo:

- Olá, como vai a Senhora?

Eu respondi e começamos a conversar a partir desse dia, e foi assim que a história mais louca de minha vida teve início.

(A continuação dessa história está na postagem "Um sentido novo à vida".)

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quinta-feira, 13 de novembro de 2008

A última vez que vi minha avó

Quem me conhece me acha divertida, alegre, de bem com a vida, mas nem sempre fui assim. Houve uma época em minha vida na qual eu me sentia um lixo. Presa de uma depressão profunda que se arrastou por anos, eu não tinha a menor alegria de viver e tudo o que seria para muitos motivo de alegria em mim não causava nenhuma emoção.

À noite eu conseguia dormir só com calmantes e durante uma ou duas horas apenas. As restantes eu fitava a escuridão, esperando o momento de levantar e enfrentar mais um dia. A idéia de ter que me levantar me aterrorizava, por mais paradoxal que possa parecer, apesar de passar a noite em claro, o que eu mais gostaria de fazer é não me levantar nunca mais, dormir até o dia de minha morte.

Como uma coisa leva à outra, a idéia de morte foi instalando-se em minha cabeça até tornar-se uma idéia fixa. E de tanto pensar em morte, um dia comecei a pensar que eu poderia chegar a ela mais rápido. E a idéia de suicídio começou a flertar comigo, a cada dia ela se tornava mais atraente, até que um dia, numa crise de desespero, decidi que aquele seria o último dia daquela amarga existência.

Já estava com tudo pronto para o ato de loucura quando um último sentimento de culpa me impeliu a ir ver se minhas 3 filhas pequenas estavam bem em suas caminhas antes de torná-las órfãs. Eu estava no banheiro de minha casa, teria que passar pela sala para ir ao quarto delas, e na sala havia uma porta dupla de vidro que dava diretamente para o sofá da sala.

Quando me aproximei da porta para abrí-la e entrar na sala vislumbrei através do vidro um vulto de uma pessoa sentada no sofá. Meu primeiro sentimento foi de medo, pois além de minhas filhas que deviam estar dormindo não havia mais ninguém em casa além de mim. Meu segundo pensamento foi de que se eu estava mesmo disposta a ir até o fim, que importância teria se ali estivesse um estranho, ladrão ou o que fosse, disposto a dar-me uma ajuda em minha tão difícil tarefa?

Pensando assim abri a porta de vidro de uma vez, disposta a apresentar-me a quem quer que estivesse sentado no sofá de minha sala, mas assim que abri a porta fiquei paralisada. Lá estava minha avó, desencarnada cerca de 6 anos antes. Estava sentada, as mãos cruzadas no colo e simplesmente me olhava. Em seu olhar havia amor, compaixão e uma súplica muda que eu logo entendi.

Assustada retrocedi, fechando a porta novamente, e quando voltei a abrí-la minha avó não estava mais ali. Fiquei horas imaginando como aquilo seria possível, se eu não estaria ficando louca, etc. Quando dei por mim meu marido estava de volta e eu me esqueci completamente do ato tresloucado que imaginara fazer naquele dia.

Tempos depois entendi como a aparição dela mudara completamente o rumo de meus pensamentos, fazendo-me esquecer e posteriormente desistir de atentar contra minha própria vida, fugindo de meus problemas e deixando-os multiplicados para os que ficariam, e que eu amava. Entendi também que o ato que estivera prestes a praticar seria prejudicial não só para mim e minha alma imortal, mas também para todos aqueles que ficariam nessa existência terrena, sem entender o que se passara para que eu me fosse de forma tão violenta e amarga.

Essa foi a última vez que vi minha avó.

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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Visita em casa

Estou na cozinha fazendo a janta, meu filho está sentado na frente do computador ao lado da janela do meu quarto. Para entrar pela porta da cozinha alguém terá forçosamente que passar pela janela e será visto por meu filho.

Estou mexendo nas panelas, distraída, quando mais pressinto que vejo meu marido entrando pela porta da cozinha, bem perto de onde estou. Viro-me para cumprimentá-lo e um vulto usando roupa branca dos pés à cabeça está ali, entrando pela porta e depois em uma fração de segundos já não está mais.

Levo um susto, dou um grito abafado e paro, com a colher na mão suspensa no ar. Do quarto meu filho pergunta: "que foi, mãe? Assustou com seu marido?"

Após alguns instantes, refeita do susto, vou até meu filho e explico que meu marido NÃO CHEGOU mas que eu vira uma "pessoa" entrando pela porta da cozinha. Meu filho fica pasmo:

- Não brinca não, mãe. Você sabe que eu não gosto "dessas coisas". Eu o vi passando aqui pela janela e quase o cumprimentei.

Explico que ele não está em casa, meu filho vai à cozinha e vê que eu não estou mentindo. Mais ou menos uma hora depois meu filho vai à cozinha tomar um café e eu fico no quarto, arrumando a bagunça. Quando olho pela janela vejo o vulto de meu marido passando pelo corredor que dá na porta da cozinha. Vou à cozinha, onde está apenas meu filho, que olha em direção à porta.

- Que foi? - pergunto eu.

- Nada, é que eu tive a impressão de que alguém estava entrando pela porta, mas não há ninguém.

De fato, não havia ninguém.

Mais tarde comento o fato com meu marido, que além de não gostar também não acredita "nessas coisas". Ele fica sério e depois conta que quando descia a escada que dá em nossa casa pressentiu alguém que vinha atrás dele e quando olhou para trás havia um vulto branco. Quando olhou de novo não estava mais lá.

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terça-feira, 2 de setembro de 2008

Casa Habitada

Sei que há muitos que não acreditam, e isso é uma questão particular de cada um, mas não posso negar o que me aconteceu. Estávamos procurando casa para mudar quando um colega de trabalho de meu marido na época, que se mudava para Dracena, ofereceu sua casa para alugar. Fomos ver a casa mas assim que entrei tive uma sensação ruim, uma espécie de opressão, como se o ar estivesse pesado.

Não queria me mudar para a casa de jeito nenhum, mas procuramos casa durante meses e como não havia outra opção, nos mudamos para lá. Desde o começo a casa parecia ter vida própria e uma série de coisas estranhas começaram a acontecer.

Eu sempre fechava bem a janela do quarto das meninas, mas por mais que fechasse e me certificasse de que havia fechado a tranca, sempre havia um momento durante a noite em que ela se abria com estrondo, de par em par, como se uma ventania invisível a movesse. As meninas ficavam assustadas mas meu marido sempre encontrava explicações racionais para o fato.

Eu sempre via através da porta de vidro ou mesmo dentro de casa, pessoas passando, mas quando ia ao lugar em que elas logicamente estariam, não havia ninguém. À noite eu e meu marido ouvíamos passos no corredor, que paravam bem em frente à porta de nosso quarto, mas abrindo a porta nunca havia ninguém.

Durante o dia eu ouvia várias vezes pessoas me chamando no portão mas raramente encontrava alguém lá quando ia atender.

Nessa época também descobrimos que minha filha mais velha estava perdendo a visão de um olho quase que totalmente. Quando conseguimos algum sucesso no tratamento de vários meses, a minha segunda filha quase entrou em coma e descobrimos que estava diabética. Também nessa casa eu e meu marido, que até então vivíamos muito bem, começamos a ter discussões acaloradas e quase diárias, muitas vezes chegando aos gritos e acusações.

Meu marido achava tudo isso besteira, e mesmo o fato de que tínhamos que manter a casa fechada ou ela se enchiam de moscas varejeiras que formavam um enxame apavorante na porta de vidro da casa, não o atingia emocionalmente. Eram centenas de moscas que tínhamos que enxotar durante muito tempo até que fossem embora.

Uma noite fomos acordados por uivos altos e contínuos de um cão. Acordamos assustados achando que uma de nossas cachorras podia ter-se ferido, então meu marido levantou para ver o que era. Alguns minutos depois ele voltou ao quarto, branco como papel e tremendo tanto que nem conseguia falar direito. O relato a seguir é dele:

Ele saiu pela porta dos fundos e as cachorras estavam bem, então notou que os uivos vinham da frente da casa. Deu a volta pelo corredor lateral e viu um cachorro na calçada, virado para nossa casa, uivando. Resolveu jogar uma pedra, mas quando passou pela varanda assustou-se pois havia uma velha sentada em uma das cadeiras de área que tínhamos. Ele a cumprimentou, mesmo assustado, achando que se tratava de alguém que não tinha para onde ir. Foi até o portão e enxotou o cachorro, e quando voltou-se para falar com a velha, ela havia desaparecido.


Sei que muitos não acreditam e mesmo ridicularizam relatos desse tipo, mas meu marido também era assim e a partir desse dia começou a levar mais a sério, e acabamos por nos mudar da casa.

Alguns anos depois soubemos que o casal que se mudara para a casa depois de nós ficou lá pouco tempo. A esposa tinha medo de ficar na casa sózinha durante o dia porque ouvia "ruídos estranhos".

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segunda-feira, 23 de junho de 2008

Segunda chance

Dizem que a primeira impressão é a que fica. Quando conheci Marques ele era pouco mais que um garoto e foi assim que o vi: um garoto metido que se achava "o cara". Ele por seu lado me viu tal qual eu era então: uma mulher orgulhosa, voluntariosa, prepotente.


Isso foi há mais de 20 anos e nos encontramos pela primeira vez em uma festa na qual mal nos falamos, apenas um aperto de mão e talvez um aceno de cabeça, essas coisas de praxe.


O destino fez com que cada um seguisse seu caminho: ele viveu um casamento de 18 anos, uma relação dolorosa e arrastada que o lhe deixou mágoas e cicatrizes. Eu me debati entre muitas relações, nas quais buscava compreensão e o amor verdadeiro. Como eu me mudara de Diadema, durante anos mais de 600 km nos separavam.


Mas durante esse tempo a vida nos ensinou e nos moldou, e nunca deixamos de procurar o verdadeiro amor, o par perfeito com quem pudéssemos ter uma relação equilibrada e harmoniosa.


Um dia, por essa ironias da vida, vim a São Paulo na última tentativa de encontrar a alma gêmea, esse ser que eu tanto ansiava amar. Mas à medida que os minutos de minha espera se transformavam em horas e esse ser não aparecia, minha esperança se desvanecia como areia que escapa pelo vão dos dedos.


Ao final, como refúgio para meu desencanto e decepção, fui para a casa da mãe de Marques, minha amiga e comadre há muitos anos. Quando cheguei as palavras foram pequenas para descrever o que eu sentia e o que se passara, e então as lágrimas falaram por mim.


Marques se aproximou porque aquela mulher capaz de viajar quase 700 km em busca de um amor de verdade não condizia com a imagem que ele guardara de mim esses anos todos. Eu me sentia derrotada e ele se curava de uma depressão após a separação.


Assim começamos a conversar, dois seres humanos querendo ser ouvidos e entendidos, com a alma nua e o peito aberto e sem reservas. Naqueles olhos castanhos que pareciam ler minha alma eu mergulhei minhas queixas e minhas histórias e aos poucos fomos reconhecendo um no outro o gêmeo do qual fomos separados ao nascer.


O amor brotou, cresceu, deu galhos e frutos.


Creio que a primeira impressão é importante mas em nosso caso ela teve que ser reformulada, pelo muito que a vida nos mudou. Somos hoje outras pessoas, que nada têm a ver com o que éramos há vinte e tantos anos. A vida se encarregou de nos separar porque ainda não era a hora de nos pertencermos. Não estávamos ainda prontos, tínhamos um longo caminho pela frente antes de nos encontrarmos novamente frente a frente, com a defesas baixadas para que a vida finalmente nos apresentasse uma segunda chance de ser feliz.

(escrito por Zailda Coirano)

sexta-feira, 30 de maio de 2008

A despedida

Eu tinha uns 15 anos e morava em Diadema com minha tia e minha avó quando esta se deu. Já era bem tarde, cerca de uma da manhã e elas já estavam deitadas a algum tempo e eu ficara vendo um filme de terror. Sempre adorei filmes de terror mas este devia ser daqueles pavorosos, e quando eu ficava com medo deixava o cachorro entrar e ele se deitava perto de mim no sofá, assim eu me sentia mais protegida e não sentia tanto medo.

De repente a porta da sala que dava para o corredor e o quarto de minha tia se abriu e ela, com os olhos vermelhos de quem acabara de acordar me perguntou:

- Você me chamou?

Eu estava tão compenetrada no filme que me assustei quando ela abriu a porta, fiz que não, eu não a chamara.

- Estranho - disse ela - eu ouvi alguém chamar meu nome distintamente e foi tão alto que me acordou.

- Vai ver você estava sonhando - eu disse para encerrar de novo aquela conversa que estava já me cansando e voltar a ver o filme.

Ela voltou para seu quarto, mas nem meia hora havia se passado e apareceu na sala de novo. Novo sobressalto.

- Que foi, tia Cida? - perguntei impaciente.

- Dessa vez eu tenho certeza que ouvi. Chamou 3 vezes e ainda bateram na janela. Gritaram "Cida, Cida, Cida". É impossível você não ter escutado.

- Não escutei nada. E olhe que o Tupi (o cachorro) está aqui comigo. Se alguém tivesse chamado ele teria latido. Você estava sonhando de novo.

Dessa vez ela não se convenceu e sentou-se no sofá, resmungando que não estava louca e não sonhara, tinha certeza de que a estavam chamando. Pra me ver livre dela logo, abri a porta da sala e fomos juntas lá fora ver se havia pelo menos o rastro de alguém. Nada. Silêncio total, apenas algumas folhas se moviam com o vento.

Mesmo assim ela não se conformou, sentou-se no sofá e ficou lá resmungando e dando palpites nas cenas do filme. Eu já estava ficando irritada com aquilo quando ouvimos claramente alguém bater palmas no portão.

- Credo! - disse ela, fazendo o sinal da cruz no peito - A essa hora só pode ser coisa ruim.

Naquele tempo ainda não tínhamos telefone, aliás quase ninguém tinha. Abri a porta sobressaltada e dei com um policial no portão e uma viatura da polícia civil.

- Dona Maria Aparecida Coirana mora aqui?

Fiz que sim com a cabeça. O susto me deixara sem voz.

Minha tia se adiantou e foi até o portão e ouvi quando o policial explicou:

- A senhora conhece a Dona Rita Prates?

Ela disse que sim, que Rita Prates era sua tia, irmã de sua mãe.

- Acabaram de ligar para a delegacia, de Araçatuba. Pediram que lhe avisasse que Dona Rita Prates faleceu há meia hora.

Essa foi a primeira de muitas vezes em que isso se repetiu. Acabamos por incorporar a idéia de que todos os parentes e amigos que partissem passariam por nossa casa para "avisar" minha tia, ou quem sabe para se despediram. Presenciei esse fato repetindo-se vezes sem conta e sempre da mesma maneira. Minha tia ouvia os chamados e já ficávamos à espera do aviso no portão e da chamada telefônica depois que compramos um telefone. E apesar de não saber como explicar isso, o aviso nunca falhou.

(zailda coirano)

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Premonição

S. era minha amiga há alguns anos, vez por outra vinha à minha casa e passávamos horas conversando sobre amenidades ou assuntos mais sérios. Fosse pessoalmente ou por telefone nosso papo sempre fluía alegre e interessante, tínhamos muita coisa em comum.

Naquela tarde ela apareceu sem que eu a esperasse, e ela sempre combinava comigo antes quando pretendia me visitar porque eu costumava sair no final de semana. Assim que a vi no portão notei que ela estava diferente, talvez um pouco alterada. Ela tinha a pele clara mas naquele dia estava um tanto pálida, seus olhos tinham um brilho diferente e estava muito agitada. Fumava um cigarro atrás do outro, gesticulava muito, falava sem parar, levantava e sentava várias vezes.

Logo que começamos a conversar notei que logo atrás dela havia uma espécie de sombra, algo como um esboço da figura dela, um pouco maior que minha amiga. A princípio era apenas uma leve imagem, como a que se forma com o vapor, mas aos poucos senti que ia se tornando mais e mais visível.

À essa época eu já estava acostumada a ver coisas estranhas para as quais já havia desistido de buscar explicações e tinha também aprendido a viver com elas. Enquanto conversávamos fui aos poucos passando o braço pelo encosto do sofá tentando tocar "a coisa", mas assim que minha mão se aproximou a "imagem" se afastou tomando uma forma levemente côncava em volta do local onde eu estava com a mão.

Imediatamente minha amiga parou de falar e estremeceu de leve.

- Credo, senti um arrepio. - disse ela.

Mas logo continuou a tagarelar. Ela estava bem falante naquele dia, contando como fora sua semana e as brigas com o namorado com quem estava já há 3 anos e com o qual brigava e reatava toda semana.

Passamos assim a tarde toda, ela falando pelos cotovelos e eu notando que a figura atrás dela a cada hora tornava-se mais nítida e vez por outra tentando tocá-la (talvez assim se tornasse mais real para mim), mas sem sucesso.

Já estava tarde quando ela resolveu que já era hora de ir para casa, já ia saindo com aquela sombra que a acompanhava, mas ao sair pela porta virou-se, veio em minha direção e deu-me um abraço apertado.

- Você é minha melhor amiga - disse. Virou-se e foi embora. Do portão fiquei acompanhando com os olhos enquanto ela se afastava e ela deve ter pressentido meu olhar em suas costas, porque antes de dobrar a esquina virou-se e acenou um "tchau". Senti um aperto no coração e um nó na garganta que não soube explicar até que à noite a mãe de S. me ligou aos prantos, dizendo que sua filha acabara de dar entrada no pronto-socorro da cidade onde teve uma parada cardíaca e não foi possível...

Eu já não estava mais escutando, tudo que me vinha à cabeça era a estranha figura que viera com ela, sua tagarelice anormal, o fato de ter-se virado para me dar um abraço como se estivesse se despedindo e o aceno final. Nunca mais a veria, pelo menos não nesse mundo, e ela aparentemente sabia disso.

(zailda coirano)

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Pedindo para nascer

É comum os filhos, em momentos de revolta, dizerem aos pais:

- Eu não pedi pra nascer!

Mas isso não é verdade. Segundo a doutrina espírita todos nós pedimos, chegamos a implorar pela chance de reencarnar e ter uma nova chance de evolução. A cada reencarnação temos a chance de crescer e nos tornarmos espíritos mais elevados e é o que almejam todos os que estão desencarnados.

Os que já se foram aguardam ansiosamente o momento de voltarem ao nosso convívio como forma de expiar suas faltas ou simplesmente crescer espiritualmente. Alguns espíritos mais elevados vêm ao nosso mundo com determinada missão que lhes é confiada pelo Criador.

Os sofrimentos e perdas pelos quais passamos nessa vida são uma forma de expiação e podem ser usados para nosso amadurecimento. Espíritos menos evoluídos revoltam-se e perdem aí pontos em sua evolução, muitas vezes voltando à estaca zero, regredindo ao estágio inicial.

Eu tinha um emprego confortável no banco, em termos materiais. Com ele conseguia suprir tudo o que era necessário à minha família, não só o essencial mas também proporcionando-lhes um certo conforto. Quando saí do banco, aos poucos fui perdendo tudo e passei por um período no qual todos os dias eu tinha que bolar uma maneira (através do trabalho, bem entendido) para conseguir comprar o almoço de minha família. No jantar eu nem pensava, era um luxo que não podíamos nos permitir naquela época.

Meus filhos, acostumados a uma vida onde tinham tudo o que queriam, reclamavam a todo momento, mas eu os acalmava e pensava: "se Deus permitiu que isso acontecesse é porque quer me ensinar alguma coisa". Exatamente como qualquer pai ou mãe, quando um filho não aprende o que tem que aprender pelo caminho mais fácil, Ele nos coloca "de castigo", para que pensemos no que vínhamos fazendo errado até então. Esse "castigo" é uma forma de fazer com que meditemos e lembremos qual foi a missão ou o compromisso que assumimos com Ele quando recebemos permissão para voltar.

Pensando dessa forma eu comecei a me lembrar da soberba com que eu me julgara enquanto tinha uma vida mais confortável, acreditando-me fazendo parte de uma "casta superior" de indivíduos que tinham uma certa renda mensal. Quantas e quantas vezes me senti superior, ao passar com meu marido em nosso carro pelas ruas, enquanto outros passavam fome. Lembrei-me da forma que eu via as pessoas mais humildes, julgando-as inferiores porque não tinham capacidade de ganhar e acumular bens como eu!

Aos poucos fui aprendendo a viver com mais humildade, e à medida que esse longo aprendizado acontecia, as coisas foram mudando e minha família se reestruturou de forma bem diversa. Acredito que esse período de "vacas magras" nos aproximou mais uns dos outros e nos ensinou a dar valor a coisas que antes nem sequer levávamos em conta. Aprendemos a valorizar o amor que tínhamos uns pelos outros, a ajuda que dávamos e recebíamos de nossos verdadeiros amigos, a não julgar os outros pela sua posição na escala social.

Aprendemos muitas coisas que com certeza foram e sempre serão úteis para cada um de nós avançar na escala espiritual, deixando de lado os valores materiais dessa sociedade de castas na qual vivemos, onde se valoriza apenas o dinheiro e a aparência.

Tudo o que nos acontece de ruim serve para nosso crescimento, se conseguirmos encarar as provações como formas de aprendizado. Amargas muitas vezes, mas nem sempre o remédio pode vir em doses homeopáticas ou com gosto agradável.

(zailda coirano)

domingo, 20 de abril de 2008

Inspiração

Acho muito interessante a forma como me vem a inspiração para escrever. Muitas vezes acordo com um assunto na cabeça, às vezes até um  texto completo. Já me aconteceu de escrever textos e poemas inteiros durante a noite e ao acordar dou com eles ali, sem me lembrar de tê-los escrito. Não sei se os escrevo dormindo ou se acordo apenas para colocar pra fora o que me vai na cabeça e depois não me lembro.

Há fases em que essa inspiração me assalta muito mais, houve até uma ocasião em que escrevi cerca de 100 poemas em 3 dias. Eu me sentia como que tomada pela inspiração e não conseguia fazer nada mais que escrever, até comer eu comia escrevendo, levantava várias vezes à noite para botar no papel o texto que tinha na cabeça e passava muitas e muitas horas escrevendo freneticamente.

Em outras ocasiões eu escrevia crônicas uma depois de outra e só conseguia dormir depois de esvaziar a cabeça de todas as idéias que haviam se formado.

Acho interessante a forma que a inspiração me atinge, por vezes me abandona por meses ou anos e posso ficar sentada horas a fio tentando escrever alguma coisa que não sai absolutamente nada.

Imagino que a forma de me inspirar tem alguma coisa de espiritual, acho que estou em sintonia com outros espíritos que me assopram o que devo escrever ou coisa assim, e se não consigo a conexão, nada feito.

(zailda mendes)

terça-feira, 11 de março de 2008

Essa foi por um triz

Quando eu estudava na Universidade Metodista tinha que tomar um ônibus até o Paço Municipal de São Bernardo e então um outro até Diadema, onde eu morava. Como era à noite, às vezes ficava complicado pra tomar o ônibus porque eu não via muito bem o letreiro.

Numa noite dessas em que o ônibus estava demorando muito eu me sentei debaixo de uma guarita e uma senhora muito simpática e tagarela começou a puxar prosa. Eu ouvia e abanava a cabeça, que ia longe com meus próprios pensamentos, enquanto vigiava pra ver se meu ônibus não chegava.

Num desses momentos eis que chegam logo 3 de uma vez, e de onde eu estava não via muito bem, então me levantei e dei uns passos até o meio-fio pra ver melhor, dando aquela espichada básica de pescoço pra enxergar à noite e ainda por cima o astigmatismo atrapalhando.

Estou naquele exercício de estica pescoço, franze testa, pisca forte, quando ouço um baque forte bem atrás de mim. Pra minha surpresa a guarita sob a qual segundos antes eu ouvia a simpática velhinha tagarela falar pelos cotovelos agora está que é um escombro só. Toda detonada, vejo apenas entre as pedras uma alça da sacola que a falante senhora segurava. E um sinistro fio de sangue escorre na calçada.

Correria, gritaria, a mente confusa demora uns minutos a entender o que se passara: alguém em desespero pulara de uma das janelas do prédio em frente à calçada onde estávamos, e no seu pulo pra outra vida, inadvertidamente levara consigo a distinta senhora que agora com certeza estaria levando uma animada prosa com São Pedro.

- Não sei, meu filho. Eu estava lá esperando o ônibus, de repente "tchibum"  e agora estou aqui...

No fim das contas, era o meu ônibus mesmo, entrei meio cabisbaixa e na minha mente iam coisas estranhas, como os mistérios da vida e em como o fato de não usar óculos (e portanto não enxergar direito) poderia ter - quem sabe? - me concedido alguns anos a mais por aqui.

(zailda mendes)

Como tornar mais leve a caminhada

O orgulho e a prepotência já me acompanharam, como um pesado fardo que eu inconscientemente arrastava comigo em meu caminho. Razoavelmente bem nascida, desde cedo aprendi a conviver com meus "iguais" e olhava com certo desprezo e condescendência para aqueles que eu julgava que estavam abaixo de mim, fosse em cultura, nível social, ou o que se usasse para "medir" o quanto vale um ser humano.

Além de orgulhosa de mim mesma e de meus "feitos", era prepotente também. Imaginava-me em posição superior e capaz até de esmagá-los como baratas se por acaso se atravessassem em meu caminho. Se não o fazia, sentia-me benevolente e boazinha e um sorriso de satisfação me vinha aos lábios. Eu era um monstro e não sabia.

Esse "poder" que minha posição social falsamente me conferia um dia veio por terra, quando saí do banco e ao entrar em negócios que não soube como administrar, vi-me de repente privada de todo aquele "poder" material. Desci de uma só vez dezenas de degraus no que chamamos "escala social" nesse mundo terreno.

Mas nesse momento difícil, encontrei em algum canto dentro de mim um pouco de HUMILDADE. Olhei pra dentro de mim mesma, analizei minha situação e pensei: "se Deus permitiu que isso acontecesse, é porque quer que eu aprenda alguma coisa." E pensei isso porque não acredito num Deus vingativo, para mim Deus é um Ser de Misericórdia e sobretudo é Pai, um pai amoroso que tudo faz para ajudar e educar seus filhos, mas não hesita em ser severo o suficiente para colocá-los de castigo se teimam em não aprender suas lições.

E eu me sentia "de castigo", sentia que havia algo para aprender com aquilo tudo que estava me acontecendo. Aquele período que poderia ser de dor e caos, na verdade serviu para fortalecer minha família, estreitando os laços de amor e compreensão entre mim e meus filhos. Serviu para que eu visse que não existe ninguém melhor ou pior que outros, que somos todos iguais e igualmente filhos de Deus.

Aprendi que quando levamos um fundo golpe em nosso orgulho, em nossa vaidade, em nossa arrogância, e eles sangram, doloridos, e bradam por vingança, o melhor é não dar-lhes ouvidos, simplesmente abandoná-los no caminho, como pesados e inúteis fardos que só atrasam nossa caminhada para o aperfeiçoamento espiritual e para os braços do Pai.

Vi que quando levamos duros golpes da vida temos que aprender com eles, para nos tornarmos melhores, para servirmos de exemplo aos que vem atrás de nós, para os que compartilham conosco dessa caminhada.

Depois disso, mudaram-se meus valores, mudou minha forma de ver a vida. Muitos "amigos" que antes me bajulavam afastaram-se de mim; outros, que eu julgava seres inferiores e desgraçados, aqueles mesmos que eu me julgava capaz de destruir de um só golpe, aproximaram-se de mim e me estenderam sua mão. Coisas que antes eu julgava fundamentais, que jamais poderia ficar sem, hoje já nem me fazem falta sequer.

Eu aprendi minha lição. E você, aprendeu a sua?

(por Zailda Mendes)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Um presente vindo do Além

Desde os 13 anos eu tive o ardente desejo de adotar uma criança. Esse desejo é incomum numa pessoa dessa idade, mas o meu era tão forte que aos 15 anos pedi de presente de aniversário um livro caríssimo do Doutor Rinaldo de Lamare sobre como cuidar de bebês.

Esse desejo sempre ficou lá no fundo, recalcado, e mesmo depois que me casei e tive meus próprios filhos ele permaneceu lá dentro, em algum canto. Infelizmente eu sendo casada precisava de um co-autor para realizar meu desejo, e meus ex-maridos sempre foram completamente avessos a essa idéia.

João não era excessão e mais de uma vez debatemos o assunto, sem que ele arredasse pé nem um milímetro de sua convicção de não concordar com a adoção.

Morávamos ao lado do fórum e uma tarde estávamos sentados na varanda quando de repente, assim do nada eu sugeri pela milésima vez:

- Por quê não adotamos uma criança?

E qual não foi minha surpresa quando ele simplesmente disse que sim. Sugeri que nos trocássemos e fôssemos ao fórum imediatamente entrar com um pedido de adoção. Eu tinha pressa, imaginava que ele mudaria de idéia depois e não entendia porque ele estava concordando agora. Mas ele topou. Fomos até o fórum e registramos formalmente nosso pedido de adoção, e para minha surpresa o João jamais mudou de idéia.

Esperamos quase 3 anos pela criança e então a encarregada no fórum entrou de férias, a Neide foi substituí-la e encontrou nosso pedido, esquecido em uma gaveta. Imediatamente ela entrou em contato conosco para saber se ainda queríamos a criança, eu e o João respondemos que sim. Um mês depois recebi um telefonema, havia um bebê para adoção, mas na hora disse que não.

Mais umas semanas se passaram e recebi um outro telefonema, dizendo que havia um menino de 2 anos para adoção. Na hora meu coração me disse "é esse" e eu respondi que estava indo buscá-lo. A assistente social estranhou, perguntou se não queríamos vê-lo primeiro. Não, não queríamos. Iríamos ao fórum buscar a "nossa" criança.

Fiquei no fórum ansiosa para que ele chegasse logo, e assim que o vi a certeza tornou-se mais forte. Era ele.

Ao chegar em casa meus outros filhos o receberam com mais ou menos entusiasmo e ele foi adaptando-se à nossa vida. Alguns dias depois decidimos que não o chamaríamos por seu nome, que era muito feio, e ficamos na sala tentando achar outro nome pra ele. Era difícil chegar a um acordo porque cada nome sugerido era logo descartado por um de nós. Até que chegamos a uma unanimidade: ele iria chamar-se Alan.

Dias depois tive entrevista com o advogado que trataria da adoção, e ele me disse que estava muito impressionado com o caso. Fazendo as contas na ponta do lápis chegamos à conclusão que o Alan havia sido gerado no dia em que eu e meu marido tivemos aquela idéia de ir ao fórum, porque a adoção demorou 2 anos e 11 meses, ele chegou em casa com 2 anos e 2 meses.

O advogado perguntou-me quem havia sugerido o nome "Alan", mas nós mesmos já nos havíamos perguntado isso. Todos concordamos com o nome mas na verdade NENHUM DE NÓS O SUGERIU. Cada um de nós pensava que o outro havia sugerido esse nome, e o mais engraçado é que até aquele dia nenhum de nós achava esse nome bonito, o que reforça a idéia de que não o sugeriríamos.

Quando expliquei isso ao advogado (que é espírita) ele perguntou-me se eu sabia o que significava o nome "Alan". Eu lhe disse que não fazia idéia, mas quando ele me disse o significado muita coisa ficou clara.

- Alan - disse-me ele, sério - significa "um presente vindo do Além".

(por Zailda Mendes)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

A despedida de um anjo

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Guilherme era uma criança linda e inteligente. Sua mãe trabalhava comigo e se fecho os olhos ainda o vejo chegando à escola, sorridente, para dar um beijo na mãe.

- Ainda vou estudar aqui, Zailda - ele sempre me dizia.

Infelizmente isso não estava nos planos do Criador. Na época eu morava no interior, em Pacaembu e ele em Junqueirópolis. Mudaram-se para São Paulo e quando soube da notícia da morte do Guilherme não pude acreditar. Não o Guilherme, aquela criança tão cheia de vida.

Entendemos a morte dos velhos e doentes mas custamos a aceitar mortes que para nós são precoces. O que nos conforta, no entanto, é saber que cada um de nós tem um tempo certo para ficar aqui e uma missão a cumprir.

Guilherme com certeza também tinha a sua, e se esta foi a de trazer-nos alegria e nos encantar com sua vivacidade certamente a cumpriu. Sempre que o via - e o via quase todos os dias - estava sorridente, tranquilo. Certamente Deus o amava muito para dar-lhe uma vida curta e serena.

Até há poucos dias eu não havia ainda conversado com Andréa (mãe de Guilherme) sobre esse assunto. Ela me contou de sua dor, e mesmo sendo mãe e tendo passado por uma situação semelhante (com final diferente) tenho dificuldade para avaliar sua dor, mas a imagino imensa, impensável, inimaginável.

Perdemos os pais e somos órfãos, perdemos o marido e somos viúvas, perdemos o filho e não somos nada. Nem um nome sequer pode definir a dor suprema de perder a carne que saiu de nosso ventre, a criatura que geramos, acalentamos, alimentamos e que é o bem mais precioso que Deus pode nos dar.

Eu desconhecia os detalhes sobre a morte de Guilherme, que ela me manda numa mensagem que aqui transcrevo na íntegra.

MENSAGEM DE ANDRÉA

No dia 25/07/2005 o Guilherme estava voltando de férias (da escola) da casa da minha mãe, vinha de carona com a minha sobrinha e o namorado dela, por sinal um rapaz super responsavel, ele ia levar o Gui até a casa dele que fica em Americana e o Jorge ia buscá-lo na Segunda-feira já que por "coincidência" ele tinha uma visita marcada na Segunda-feira lá em Americana.

Eu estava em casa assistindo um programa do Datena que passava aos domingos á noite e estava passando uma reportagem sobre crianças com Síndrome de Down, não sei o motivo, más estas crianças especiais de uma certa forma mexem comigo e muito. Não consigo ver uma criança Down sem me aproximar, tocar, é muito interessante este afeto que sinto.

De repente o telefone toca, o Jorge ainda disse: atende que é o Gui avisando que já chegou na casa do Osmair, era minha cunhada aos prantos dizendo que havia recebido um telefonema do Posto de Saúde de Piracicada dizendo que a Simone (minha sobrinha) havia sofrido um acidente e estava lá internada, na hora me veio a imagem do Gui á cabeça, minha cunhada não sabia dizer sobre ele, mas eu pensei que ele estivesse lá sentado em um banco do lado de algum guarda de plantão esperando eu chegar, foi esta a imagem que me veio a mente, o que já me deixou muito apavorada pensando em como ele estaria apavorado, com medo, esperando que eu chegasse logo.

Pegamos o carro e fomos para a casa da minha cunhada buscá-la para irmos para Piracicaba, no meio do caminho me deu um nó na garganta, resolvi ligar para a Nicinha (minha cunhada) e pedi o nº do Posto de Saúde que a Simone estava, ela me deu, liguei lá para saber notícias do Gui, ou para ver se conseguia falar com ele, dizer que já estava chegando...a recepcionista me deu a pior notícia que eu podia receber naquela noite, pediu para eu ligar para a Santa Casa de Piracicaba pq o Gui havia sido transferido para lá, fiquei sem chão, não conseguia raciocinar, mas graças a deus eu tinha o Jorge ao meu lado, nesta hora ele foi mais racional até pq ele tinha que estar mais calmo, para poder dirigir, então ele ligou para a Santa Casa, se identificou como o pai do Gui, eu só consegui ouvir na hora que ele perguntou..."Tomografia?".

Dá pra imaginar meu desespero? Pensando que o Gui estava bem e do nada fico sabendo que ele estava fazendo uma tomografia.

Foi o pior caminho da minha vida, era uma eternidade, não chegava nunca, pegamos a Nicinha com o marido e fomos para Piracicaba, eu não conseguia me conter, chorei o caminho todo, não falava uma palavra, só rezando e pedindo pra Deus não levar o meu filho.

Qdo chegamos acredito eu por volta de umas 22:30hrs, fomos direto para o Posto de Saúde até para podermos pegar o endereço da Santa Casa, o Osmair estava em estado de choque, pq ele foi o único que ficou consciente, então eu imagino o medo dele qdo eu e o Jorge chegasse, ele não sabia qual seria nossa reação, minha primeira atitude foi abraçá-lo bem forte e dizer muito obrigada por ele Ter socorrido o Gui, a reação do Jorge foi a mesma, sabe, mesmo estando super aflitos com o que iriamos saber sobre o Gui, conseguimos força e tranquilidade para acalmar o Osmair.

O que me assustava muito era a reação dele, ele não conseguia se controlar, foi muito forte o acidente, o que ele presenciou não deve Ter sido nada fácil de ver e isto me preocupava. Minha sobrinha estava com o rosto todo cortado pelos cacos do vidro, devido a batida do carro com o cavalo, qdo o cavalo atravessou a pista, meu sobrinho não viu, então qdo ele foi perceber, o carro já estava em cima, ele tentou desviar mas ainda pegou a traseira do cavalo no para choque do carro, parte do passageiro, foi uma pancada muito forte, os vidros vieram todos no rosto da Simone, uns 40min antes do acidente, o Gui havia perguntado se faltava muito para chegar, meu sobrinho avisou que eram uns 40min, ele disse: então vou dormir um pouco, na hora do acidente ele estava dormindo no banco de trás, com a pancada, ele bateu a cabeça no banco do motorista, chegando a entortar o banco, de uma tal forma que os bombeiros na hora dos socorros não conseguiam deitar o banco do carro para Ter acesso á ele, tiveram que entrar pelo bagageiro para poder retirar o Gui do carro, o único conciente era o Osmair, a Simone estava desmaiada, e o Gui em coma.

Ele deu entrada na Santa Casa em coma com traumatismo craniâno, o médico disse para nós depois que o quadro que ele chegou era já de quase morto, eles usam uma escala para avaliar o grau de evolução do paciente, é uma escala de 3 á 15, o Gui chegou no quadro 3, que pra eles é quase morto.

Cheguei na Santa Casa, me identifiquei como mãe do Guilherme, preenchi uma ficha e fiquei aguardando para vê-lo, foi uma eternidade, qdo o médico me chamou, veio uma sensação de medo e angústia, não sabia o que eu ia ver atrás daquela porta, ele logo foi explicando, antes de eu entrar que não era para eu me impressionar com o que ia ver, pq o "inchaço" era normal.

Zailda, vc não tem noção do choque que eu levei, qdo entrei na UTI e vi o Gui todo entubado, o rosto dele virou uma bola, do pescoço para baixo não tinha um arranhão, mas á cabeça, estava todo inchado, passei mal, tive que sentar, as enfermeiras vieram medir minha pressão, estava com a pressão baixa, me deram remédios, e me prepararam que o quadro dele era muito sério.

Qdo entrei que falei boa noite para uma enfermeira que estava do lado dele, o coração dele disparou, começou fazer aquele barulho forte e rápido, ele sabia que eu estava lá.

Bom aí começou meu pesadelo, não sabia o que fazer, pra onde ir.

O Gui ficou uma semana em coma, do mesmo jeito, minha mãe estava no interior, aí ela resolveu vir para Piracicaba, na noite anterior na Sexta-feira, eu fui visitá-lo, (eu ia todos os dias, de manhã e a noite,) eu percebi que ele estava diferente, parecia que estava dormindo mais profundo...Na manhã do Sábado, acordei com aquela imagem na cabeça, resolvi ir á uma igreja lá perto da casa do Osmair (eu estava ficando na casa dele, e o pior, toda vez q ia ao hospital, passava na frente de onde foi o acidente....) qdo cheguei na igreja fui até o santíssimo e naquele momento tive uma vontade muito forte de chorar e dizer que á partir daquele momento eu não ia rezar mais para pedir que o Gui ficasse comigo e sim pedir para deus fazer o que fosse melhor para ele e não para mim, percebi que eu estava sendo egoísta em querer o Guilherme comigo mesmo sabendo que seria em estado vegetativo não teria outra forma dele viver que não fosse esta, em momento algum eu pensei se ele queria viver desta forma, se ele estaria feliz vivendo em cima de uma cama vegetando, um menino que sempre brincou, jogou bola, vc lembra como ele era ativo.

O padre nos chamou para conversar, Zailda eu sentia como se estivesse conversando com deus, sabe aquela angústia da semana toda, tentando ser forte, pensamento positivo, toda aquela pressão....desabei....chorei muito, me aliviei...ele deu muito conselho e disse que iria lá no hospital ver o Gui, conversou bastante com o Jorge, que foi outro de desmontou....era muita pressão sabe, era tudo muito louco. Qdo o Jorge saiu da sala dele, eu já tinha conversado com ele, ele chamou um de cada vez, eu ouvia o choro do Jorge do lado de fora, o padre veio e me disse este homem te ama muito não se esqueça disto.

Fomos embora sabendo que o padre iria lá ver o Gui, mais tarde voltaríamos para ouvir o que ele tinha para dizer.

Fui para o Hospital mais cedo um pouco, pq minha mãe ia chegar, ela ia direto para lá, minha mãe chegou em cima da hora da visita, qdo cheguei no local onde entravam as visitas e dei o nome do paciente, o guarda disse que o médico pediu para entrar somente os pais, pq ele precisava falar conosco, gelei, qdo cheguei no quarto, o Gui estava lá com a mesma imagem de que eu havia deixado na Sexta á noite, não era a que eu estava acostumada a ver no decorrer da semana, o médico chegou, veio da casa dele só para conversar com os pais do Guilherme, e nos deu a notícia de que havia dado morte cerebral, não tinha mais o que ser feito.

Zailda meu mundo acabou, não conseguia administrar direito esta notícia, fiquei sem rumo, o médico perguntou se tinha mais alguém que eu gostaria que visse o Gui, então falei da minha mãe que havia acabado de chegar, e eu gostaria que ela entrasse, então ela veio até o quarto, até então ela não sabia ainda do que acabara de acontecer, só que pelo meu estado emocional e do Jorge, ela percebeu que algo tinha acontecido, então o médico disse á ela. Você consegue entender que o Gui só estava esperando minha mãe chegar para ir embora pro céu? E que para que isto acontecesse ele tinha que Ter a minha permissão, qdo eu o entreguei para Deus dizendo: Senhor faça do Guilherme o que for melhor para ele, hoje estou colocando meu filho em sua mão, estou devolvendo ao senhor o que é seu.

Zailda era o que o Gui estava esperando para ir embora.

A GRAVIDEZ

Foi numa madrugada de Sábado, "sonhei" com o Gui, ele estava chegando em casa, todo lindo, saudável, eu abraçei ele com aquele sentimento de alívio sabe como se todo o sofrimento tivesse acabado, como se tudo não passasse de um pesadelo e eu estava acabando de acordar, era um abraço de saudade de mãe mesmo, ele me disse sem eu perguntar nada: Mãe eu estou bem, eu estou feliz.....Eu segurei na mão dele e levei ele até o Jorge que estava na cozinha, e disse Jorge aproveita esta oportunidade e fala para o Gui o qto vc gosta dele, eles se abraçaram e o Jorge chorava muito, e o Gui sempre com aquela fisionomia serena, tranquila.....

No Domingo de manhã, o Jorge estava lá em baixo (eu moro em apartamento) na garagem fazendo umas reformas, eu fui lá e contei pra ele do sonho, ele pensou: a Andréa vai engravidar, o Gui veio dizer que estamos prontos.

Naquele Domingo era para vir minha menstruação, só que estava só aquela sujeirinha bem leve, eu pensei....Eu estou grávida....O Gui veio me dar esta notícia.

E assim foi, passaram uns 10 dias procurei a médica, a princípio eu não estava grávida, fiz um exame de gravidez deu negativo, só que minha menstruação nada, ela me passou um remédio para menstruar, tomei o remédio e nada, ela pediu outro exame de gravidez, para minha surpresa deu positivo....sabe que dia foi este? Dia 23/11/2007 no dia do aniversário do Gui.

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Querida Andréa:

Com certeza o fato de ter recebido a notícia da gravidez no dia do aniversário do Guilherme não foi coincidência, porque estas não existem. Deve ter sido uma forma de Deus lhe dizer que levou o anjo que havia lhe confiado por estar finda sua missão na terra, mas que tem outro tesouro a lhe confiar.

Não sei porque sempre que penso em seu bebê que está pra chegar, sempre imagino uma menina, e tenho certeza que ela (ou ele) trará a você e ao Jorge muitas e muitas alegrias, e que lhes dará um novo sentido à vida.

Beijos

(por Zailda Mendes)

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